Percebi a carteira da Ana vazia hoje na escola. Mas ela não faltara aula naquele dia, ela estava sentada lá, só que com a mente em outro lugar. Ana estava com a cabeça baixa, rabiscando alguma coisa no caderno… Um coração. Por um momento achei fofo, ela o contornava pela a aula de história inteira. Comecei a observar aquilo e ela rabiscou todo o desenho. Encheu os olhos de lagrimas e se escondeu no capuz de seu moletom preto. Ela era muito legal, ela falava com todo mundo, e tenho certeza que todo mundo amava falar com ela. Era aquele tipo de garota que fazia qualquer um rir e que vivia cantarolando e rindo com as amigas. Eu não faço a mínima ideia do que aconteceu com ela.
Mas ela mudou… Mudou totalmente. A garota ficou fria. Fones de ouvido, falando só o necessário, nem parece aquela menina que um dia sorria até pro vento. Ela era uma estrela, que agora perdeu o brilho.
Mas a verdadeira estrela precisava do brilho de volta, a garota de antigamente não existe mais, essa estrela perdeu coragem, liberdade, senso de humor, criatividade, e um amor. Faz um tempo que a estrela queria seu brilho de volta, mas agora era inevitável, ele precisava pra sobreviver, e teve que retirar a magia de Ana... O amor. Ela não soube amar desde então, perdeu tudo o que havia conquistado. Mas uma coisa Ana não esperava, a estrela tinha lhe roubado o coração. Ela não tinha mais vida, só existia, mais nada. Musica. Essa a entendia bem, as pessoas não passavam de um fardo, amigos... Não sabia o que era isso agora. Não importava mais o futuro, nem o passado e nem o presente. Eu via Ana guardando o material sem muito animo, eu via ela desesperada, mas sem demonstrar nada. Ela pedia ajuda, mas ninguém ouvia. Ela não se comunicava muito verbalmente, e às vezes nem se comunicava.
Já era fim de tarde quando saímos da escola, vi Ana passando por mim, quase se arrastando, de cabeça baixa. “Não seria mal se eu a seguisse”. Pensei. E assim eu fiz. Chegamos em um morro, que era muito lindo pra falar a verdade. Ana começou a escalar todas as pedras daquele lugar, sentando na mais alta. A pedra ficava perto de uma arvore enorme. E era iluminada pela lua. Ana olhou para o céu, e eu acompanhei o seu olhar. Estava uma noite linda, de céu estrelado, mas... Havia uma estrela solitária, um pouco distante de todas as outras. De acordo com tudo o que estudei sobre astrologia, acho que era a estrela que se chamava, ironicamente, Ana.
Ana estava chorando, e olhava para a estrela. A estrela não brilhava muito, na verdade seu brilho estava quase se apagando. Quase não se destacava entre as outras. Quase. Havia uma coisa diferente, ela tinha a forma de um coração. Olhei novamente para a alta pedra em que Ana estava, só que... Ela não estava mais sentada ali. A procurei e encontrei o corpo da garota entre as outras pedras mais baixas. Ana tinha se jogado. Cometeu suicídio. Ela tinha acabado com tudo.
Olhei novamente para o céu, para a estrela com o formato de coração. E naquele momento, o brilho dela tinha aumentado. Estava muito intenso, e agora ela se destacava entre as outras. Era uma linda estrela de coração no céu. Essa estrela, de alguma forma, recuperou o seu brilho. Mas, Ana não. Ela simplesmente se apagou.
- Ana

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