terça-feira, 27 de agosto de 2013

Consequências


            Eu nunca fui o tipo de garota que se importava. Nunca fui um orgulho para meus pais. Eu era uma garota fria, insensível, o tipo de “bad girl” que fazia o que tinha vontade e mandava o resto ir se ferrar. “- Pra que se importar? Pra que seguir todas as regras? No final todo mundo morre mesmo.” Sempre pensava assim. Esse era o meu lema. Eu só pensava em me divertir, fazer o que me dava na telha, sem me importar com nada. Nada mesmo. Eu realmente não ligava para nada. Estudos, família, amigos... Não me importava nada disso.
           Na verdade, houve uma única vez que realmente me importei com algo. Com alguém... Com um garoto, para ser mais exata. Só que, eu o matei. Contarei essa história para você agora.
           Uma noite fria. Eu estava no meu quarto, sozinha. Som ligado no ultimo volume. Um rock bem pesado. Bem pesado mesmo. Eu gostava assim.
           Acabava de tomar o ultimo gole da garrafa de Jack Daniels que tinha roubado mais cedo da loja de conveniência que ficava no fim da cidade. Estava entediada, e resolvi sair. Estava andando pela cidade quando parei para observar um jovem casal. Os dois estavam sentando em um banco, se beijando.
        “Que patético. Amor é um sentimento tão besta. Idiotas.” Pensei.
         Sentei no banco ao lado do deles. Os dois pararam de se agarrar e olharam pra mim. E, subitamente, se levantaram e saíram depressa de perto de mim. Você deve estar se perguntando o porquê, talvez? Mas eu já vou lhe dizendo, isso era normal. Eu não era o tipo de garota simpática, bonita, sorridente e certinha igual a todas as outras da minha idade, nessa cidade. Muito pelo contrário. Todos me conheciam naquela pequena cidade por todas as coisas que fazia.
       Sentada ali, sozinha, tremendo de frio. Pego um cigarro e o acendo. Levo-o até os lábios, dou uma tragada longa e solto a fumaça. Penso em toda essa nicotina acabando com os meus pulmões aos poucos. Uma menina de 16 anos, fumante. Eu deveria me envergonhar. Olho para o outro lado da rua, vejo outro casal andando. Mas esse casal é mais velho. Devem ser casados, por que há uma garotinha no meio dos dois. Ela deve ter uns 2, 3 anos, no máximo. Sorri feito uma boba e dá as mãos para os pais, que também estão sorrindo.
      “Família. Coisa idiota. Não presta pra nada mesmo.” Penso.
     - Vem sempre por aqui, moça? – Ouço uma voz me perguntar. Vejo que há um garoto sentado ao meu lado. A quanto tempo ele estava ali? Estava tão distraída observando a família que nem percebi a chegada dele. Olho para ele e... Simplesmente paraliso. Ele era lindo. Com certeza era novo na cidade. Moreno, pele bronzeada e tinha dois olhos pretos, mas tão pretos que pareciam um abismo... Em que qualquer uma se perdia.
        - Não. Não venho. Te conheço? – Pergunto para o garoto, ainda impressionada com a beleza, mas, sempre mantendo minha frieza.
        - Não, linda. Sou novo por aqui. Posso saber o seu nome?
        - Não, não pode. Até mais. Me levanto, sigo em direção a minha casa. Bom, na verdade, consigo dar dois passos, antes do garoto me puxar pelo braço me fazendo olhar para ele.
       - Qual é! Eu só tô querendo conversar, moça. Sou novo por aqui, já disse. Não conheço ninguém. Preciso de alguém pra ir pra farra comigo. Preciso de diversão, essa cidade é chata demais. To me arrependendo de ter vindo pra cá, sério. Estava andando por aí, e te vi. Te achei linda, muito linda. Com certeza a gente vai se divertir muito juntos. – Ele disse. O encarei por um tempo. Farra, diversão. Eu também quero. Mas, espera. Linda? Olho pra mim, cabelo revoltado, maquiagem borrada, camiseta de banda, calça rasgada e all star. Linda onde? Esse cara deve ser louco. Mas eu gosto assim. – Eu me chamo Luke. Então, me dirá o seu nome? – Ele pergunta. Dou um sorriso de leve.
     - Anne. E acho que a gente vai se divertir muito juntos mesmo. – Respondo. Finalmente alguém interessante nessa cidade.
       E foi assim que a gente se conheceu. Viramos amigos. Melhores amigos. Fazíamos tudo juntos. Roubávamos, consumíamos todo tipo de drogas, realmente não nos importávamos. Passaram algumas semanas e eu tinha me apaixonado por ele. Só ele importava.
       Certo dia, eu seguia em direção a casa dele. Nós tínhamos planejado roubar o mercado da cidade. Um plano perfeito, você tinha que ver. Cheguei e entrei. Iria chamar pelo seu nome, mas ouvi barulhos estranhos vindo do quarto dele. Segui as escadas e espiei pelo buraco da fechadura. Tinha pegado ele na cama com outra menina. Eu era fria e totalmente rebelde, por medo de ser magoada. E ele conseguira estragar tudo. Luke foi a única pessoa que me magoou, na vida. Mas, é claro que eu não iria deixar isso barato.
       Havia um nó em minha garganta, que parecia que não ia se desatar nunca. Lutei com todas as minhas forças pra segurar as lágrimas. Voltei para casa. Peguei a caixa que ficava no meu guarda-roupa e a coloquei sobre minha cama. Peguei o revólver que estava dentro dela, coloquei-o na cintura e segui para a casa de Luke novamente. Fui até o quarto dele, abri a porta com um chute. Os dois, que até agora estavam dormindo acordaram de susto e pularam da cama. Apontei o revólver para Luke e o engatilhei.
      - Anne, calma... Eu posso explicar tudo... – Ele disse.
      - Sem desculpas, amor. Sem mentiras, por favor. Me poupe, Luke. Você já era. Queime no inferno. – Puxei o gatilho, e ele caiu morto na minha frente. A outra menina gritou, e então atirei nela também. Foi isso. Fim da história. Para eles, claro.
       Voltei para casa. Prometi que nunca me apaixonaria novamente. E então continuei a minha vida.
       Meses depois, eu tinha planejado roubar o banco. Sozinha. Queria sentir adrenalina. Como pude ter sido tão burra? Saí de casa com o revólver na cintura. Entrei no banco e o saquei, anunciando o assalto. Mas, deu tudo errado. A polícia chegou, e eu apontei o revólver e atirei. Não, na verdade, eu não atirei. Puxei o gatilho e... Não havia bala nenhuma na arma. Estava totalmente descarregada. Eu havia a carregado antes de sair, não faço idéia de como, mas todas as balas tinham sumido. Eu estava ferrada.
      Larguei o revólver e me preparei para o pior. Ouvi o barulho do tiro, e em seguida senti a dor lancinante no meu peito. Caí no chão. Sabe aquela história de que a sua vida passa na frente dos seus olhos quando se está morrendo? Mentira. Não houve nada disso. Minha visão ficou embaçada, tudo escureceu.
     Eu morri. Mas aquele não foi o fim. Quem dera se fosse.

                                    CONTINUA...

                                                                                                 - Ana

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