sábado, 31 de agosto de 2013

Não vai passar, só mudar


          "Eu esqueci você." Essa é com certeza a maior mentira que um dia diremos pra alguém. Sabe por quê? Sentimentos não morrem nem são esquecidos, eles apenas se transformam em outros sentimentos. Tipo mutação. O tempo tem sim o poder de mudar o nosso foco, mas ele não apaga uma história. Muito menos as lembranças. Ele apenas te mostra que você é forte o suficiente pra continuar, mesmo com tudo isso acontecendo aí dentro. Aí, então, outras coisas acontecem.
          O amor torna a indiferença impossível. Quero dizer, as pessoas com quem você realmente um dia se importou nunca serão indiferentes. Cada uma delas despertará uma sensação única quando você, por exemplo, encontrá-la por acaso enquanto aguarda, em um final de semana qualquer, na fila do McDonald's. Vai queimar, sufocar, arder e, às vezes, tudo isso ao mesmo tempo. O que vai mudar é que, quando acontecer, você saberá sem sombra de dúvida o que é realmente bom pra você.
          Sabe, já ouvi muitos relatos de pessoas que tentaram deletar suas próprias lembranças. Aos poucos, elas foram se deletando também. A música predileta. O filme que mais fez chorar. Aquela fotografia com ele em que você saiu super bem. Nada disso pode mais ser lembrado ou guardado? Está errado.
         As lágrimas importam tanto quanto os sorrisos. Você é tudo aquilo que viveu até este exato momento. E o que em maior parte te fez evoluir foram as porradas e os tomos que a vida te deu. Que te fizeram passar dias na cama sem vontade de dormir ou comer. Que te fizeram pensar milhares de vezes em tudo aquilo que aconteceu. Que te fizeram admitir ou desistir. Que te fizeram se transformar.
          "Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." Talvez você devesse levar as aulas de química mais a sério.  


                            - Crônica tirada do livro Depois dos Quinze, da Bruna Vieira.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Direção

            Segundo trimestre, um dia de aula normal. Estava sentada em minha carteira na sala de aula, quieta, esperando o professor chegar. Esperando a aula começar. Meus pensamentos estavam em outro lugar quando ele finalmente chegou. Voltei ao mundo quando senti minha amiga me cutucar. Era hora da chamada. Presente, respondi quando chamou meu nome.
            O professor se levanta e distribui a todos os alunos um pequeno pedaço de papel. Um retangulo cortado perfeitamente.
            - Pessoal, quero que me digam o que vocês querem nesse exato momento. Nesse exato dia, nessa exata vida... Que seja. Mas... Uma palavra. Descrevam o que mais querem em apenas uma palavra. Vocês tem a aula toda pra pensar no que escrever.  Podem começar. Estão liberados depois disso.
            Alguns alunos riram, pensaram rapidamente e logo escreveram.  Entregaram o papel ao professor e por fim saíram. Mas eu fiquei. Eu não sabia o que queria.
             Explicações. Tô precisando entender o que acontece comigo. Tá difícil.
             Atitudes. Porque sempre espero demais, de pessoas de menos.
            Tempo. Pra fugir de tudo, esquecer dos problemas, das pessoas.
             Paz. Pra minha cabeça, pro meu coração.
            Sinceridade. Porque só vejo mentiras, mentiras e mais mentiras. Vejo pessoas sendo o que não são.            
             Amor. Mas um que seja de verdade, viu. Um que não vá embora, nem seja arrancado de mim no final.
Mudanças. A gente muda o tempo todo, não é¿ Quero respirar novos ares, sentir novas sensações e mudar. Porque é bom. Porque faz bem.
Respostas. Para todas as minhas duvidas. Que são tantas.
Sorte. Uma dose bem grande, por favor. Só por precação.
O tempo passa. Ouço o tic tac do relógio e continuo não sabendo o que escrever. O sinal bate e por fim, escrevo a tão difícil palavra.
Direção.
É. É exatamente disso que preciso.
Direção pra viver a minha vida do jeito certo. Sem falsas expectativas, sem falsas esperanças, sem falsos amores. Direção pra conseguir tudo o que quero, sem me importar com alguém dizendo do que sou ou do que não sou capaz. Direção pra fazer as coisas certas, mas também pra, quem sabe, errar uma, duas, dez vezes. Direção pra saber o que dizer, saber confortar quem precisa, saber arrancar sorrisos das pessoas que são importantes.
Mas deixa que destino é o responsável. Afinal, ninguém sabe o que vai acontecer daqui alguns, dias, meses ou anos. Deixa o destino escolher o que vai ser. No final, tem de valer a pena.

                                                                                                      - Ana

Resumindo

Então crescemos, e aquele nosso amor platônico da escola se transforma no cara mais babaca que já conhecemos.  O colegial acaba, e finalmente a hierarquia dos grupinhos populares vai por agua abaixo. Malhação vira mais um programa chato da Globo. Nosso animal de estimação começa a não ter mais tanta disposição.
Nossas melhores amigas já não são tão melhores assim.
Mudamos de gosto musical. Percebemos que as primas quem eram bebês há até pouco tempo já sabem dançar o funk do momento. Então amamos um cara. Logo depois aprendemos a lidar com a distância. Conhecemos outro cara. Aí aprendemos a dizer adeus. Então as preocupações do futuro se transformam e deixam de ter a ver com garotos. Temos que decidir o que fazer da vida. Alguém que amamos muito é arrancado dela.  A solidão deixa de ser só uma palavra.
Começamos a preferir os livros sem figuras. Então vamos pra faculdade.  Tentamos nos misturar e acabamos esquecendo o que aconteceu na noite passada.  Depois de alguns meses, paramos de achar graça nas coisas que antes eram incríveis e divertidíssimas.
Terminamos a faculdade e vamos em busca de um bom emprego. Enfrentamos horas sem dormir e na frente do computador. Alguém diz que não somos boas o suficiente.  Ligam pra nos informar que o nosso animal de estimação partiu. Então mudamos de emprego, de cidade, de cabelo, de guarda-roupa, de carro, de melhor amigo e, mais uma vez, mudamos a maneira de ver a vida.
Fechamos os olhos e vemos que as coisas estão mais loucas do que nunca. Aí lembramos que já passamos por tudo isso que acabei de contar. Então, finalmente, adormecemos e acordamos sem nos lembrar da complexidade da coisa mais simples do mundo: viver.

                                     - Texto tirado do livro Depois dos Quinze, da Bruna Vieira. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Consequências


            Eu nunca fui o tipo de garota que se importava. Nunca fui um orgulho para meus pais. Eu era uma garota fria, insensível, o tipo de “bad girl” que fazia o que tinha vontade e mandava o resto ir se ferrar. “- Pra que se importar? Pra que seguir todas as regras? No final todo mundo morre mesmo.” Sempre pensava assim. Esse era o meu lema. Eu só pensava em me divertir, fazer o que me dava na telha, sem me importar com nada. Nada mesmo. Eu realmente não ligava para nada. Estudos, família, amigos... Não me importava nada disso.
           Na verdade, houve uma única vez que realmente me importei com algo. Com alguém... Com um garoto, para ser mais exata. Só que, eu o matei. Contarei essa história para você agora.
           Uma noite fria. Eu estava no meu quarto, sozinha. Som ligado no ultimo volume. Um rock bem pesado. Bem pesado mesmo. Eu gostava assim.
           Acabava de tomar o ultimo gole da garrafa de Jack Daniels que tinha roubado mais cedo da loja de conveniência que ficava no fim da cidade. Estava entediada, e resolvi sair. Estava andando pela cidade quando parei para observar um jovem casal. Os dois estavam sentando em um banco, se beijando.
        “Que patético. Amor é um sentimento tão besta. Idiotas.” Pensei.
         Sentei no banco ao lado do deles. Os dois pararam de se agarrar e olharam pra mim. E, subitamente, se levantaram e saíram depressa de perto de mim. Você deve estar se perguntando o porquê, talvez? Mas eu já vou lhe dizendo, isso era normal. Eu não era o tipo de garota simpática, bonita, sorridente e certinha igual a todas as outras da minha idade, nessa cidade. Muito pelo contrário. Todos me conheciam naquela pequena cidade por todas as coisas que fazia.
       Sentada ali, sozinha, tremendo de frio. Pego um cigarro e o acendo. Levo-o até os lábios, dou uma tragada longa e solto a fumaça. Penso em toda essa nicotina acabando com os meus pulmões aos poucos. Uma menina de 16 anos, fumante. Eu deveria me envergonhar. Olho para o outro lado da rua, vejo outro casal andando. Mas esse casal é mais velho. Devem ser casados, por que há uma garotinha no meio dos dois. Ela deve ter uns 2, 3 anos, no máximo. Sorri feito uma boba e dá as mãos para os pais, que também estão sorrindo.
      “Família. Coisa idiota. Não presta pra nada mesmo.” Penso.
     - Vem sempre por aqui, moça? – Ouço uma voz me perguntar. Vejo que há um garoto sentado ao meu lado. A quanto tempo ele estava ali? Estava tão distraída observando a família que nem percebi a chegada dele. Olho para ele e... Simplesmente paraliso. Ele era lindo. Com certeza era novo na cidade. Moreno, pele bronzeada e tinha dois olhos pretos, mas tão pretos que pareciam um abismo... Em que qualquer uma se perdia.
        - Não. Não venho. Te conheço? – Pergunto para o garoto, ainda impressionada com a beleza, mas, sempre mantendo minha frieza.
        - Não, linda. Sou novo por aqui. Posso saber o seu nome?
        - Não, não pode. Até mais. Me levanto, sigo em direção a minha casa. Bom, na verdade, consigo dar dois passos, antes do garoto me puxar pelo braço me fazendo olhar para ele.
       - Qual é! Eu só tô querendo conversar, moça. Sou novo por aqui, já disse. Não conheço ninguém. Preciso de alguém pra ir pra farra comigo. Preciso de diversão, essa cidade é chata demais. To me arrependendo de ter vindo pra cá, sério. Estava andando por aí, e te vi. Te achei linda, muito linda. Com certeza a gente vai se divertir muito juntos. – Ele disse. O encarei por um tempo. Farra, diversão. Eu também quero. Mas, espera. Linda? Olho pra mim, cabelo revoltado, maquiagem borrada, camiseta de banda, calça rasgada e all star. Linda onde? Esse cara deve ser louco. Mas eu gosto assim. – Eu me chamo Luke. Então, me dirá o seu nome? – Ele pergunta. Dou um sorriso de leve.
     - Anne. E acho que a gente vai se divertir muito juntos mesmo. – Respondo. Finalmente alguém interessante nessa cidade.
       E foi assim que a gente se conheceu. Viramos amigos. Melhores amigos. Fazíamos tudo juntos. Roubávamos, consumíamos todo tipo de drogas, realmente não nos importávamos. Passaram algumas semanas e eu tinha me apaixonado por ele. Só ele importava.
       Certo dia, eu seguia em direção a casa dele. Nós tínhamos planejado roubar o mercado da cidade. Um plano perfeito, você tinha que ver. Cheguei e entrei. Iria chamar pelo seu nome, mas ouvi barulhos estranhos vindo do quarto dele. Segui as escadas e espiei pelo buraco da fechadura. Tinha pegado ele na cama com outra menina. Eu era fria e totalmente rebelde, por medo de ser magoada. E ele conseguira estragar tudo. Luke foi a única pessoa que me magoou, na vida. Mas, é claro que eu não iria deixar isso barato.
       Havia um nó em minha garganta, que parecia que não ia se desatar nunca. Lutei com todas as minhas forças pra segurar as lágrimas. Voltei para casa. Peguei a caixa que ficava no meu guarda-roupa e a coloquei sobre minha cama. Peguei o revólver que estava dentro dela, coloquei-o na cintura e segui para a casa de Luke novamente. Fui até o quarto dele, abri a porta com um chute. Os dois, que até agora estavam dormindo acordaram de susto e pularam da cama. Apontei o revólver para Luke e o engatilhei.
      - Anne, calma... Eu posso explicar tudo... – Ele disse.
      - Sem desculpas, amor. Sem mentiras, por favor. Me poupe, Luke. Você já era. Queime no inferno. – Puxei o gatilho, e ele caiu morto na minha frente. A outra menina gritou, e então atirei nela também. Foi isso. Fim da história. Para eles, claro.
       Voltei para casa. Prometi que nunca me apaixonaria novamente. E então continuei a minha vida.
       Meses depois, eu tinha planejado roubar o banco. Sozinha. Queria sentir adrenalina. Como pude ter sido tão burra? Saí de casa com o revólver na cintura. Entrei no banco e o saquei, anunciando o assalto. Mas, deu tudo errado. A polícia chegou, e eu apontei o revólver e atirei. Não, na verdade, eu não atirei. Puxei o gatilho e... Não havia bala nenhuma na arma. Estava totalmente descarregada. Eu havia a carregado antes de sair, não faço idéia de como, mas todas as balas tinham sumido. Eu estava ferrada.
      Larguei o revólver e me preparei para o pior. Ouvi o barulho do tiro, e em seguida senti a dor lancinante no meu peito. Caí no chão. Sabe aquela história de que a sua vida passa na frente dos seus olhos quando se está morrendo? Mentira. Não houve nada disso. Minha visão ficou embaçada, tudo escureceu.
     Eu morri. Mas aquele não foi o fim. Quem dera se fosse.

                                    CONTINUA...

                                                                                                 - Ana

domingo, 25 de agosto de 2013

Apenas viva


             Com o tempo a gente vai mudando... E vai percebendo que esperar atitudes de quem não tem é perda de tempo. Cansei de ligar pra quem não liga pra mim. Agora eu sorrio mais. Faço mais. Vivo mais. Sem me importar com o que vão pensar, ou o que vão dizer. Mudar por alguém que não seja eu, está totalmente fora dos meus planos. A vida precisa ser vivida do jeito certo. Um jeito que era totalmente o oposto do que eu vivia.
            Minha vida sempre vai ter pelo menos um feliz, mesmo que não seja pra sempre. Ouvindo música pra esquecer dos problemas, sempre vendo o lado bom de cada situação... Você só vive a vida uma vez. Mas, se vivida do jeito certo, apenas uma vida é suficiente.
           E deixa o destino decidir o que vai acontecer. Se é pra ser, vai ser.
          Ao invés de ficar parado vendo a vida passar, viva.

                                                                                                       - Ana

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Meio Psicopata

Era 04 de agosto de 2004. O dia em que eu mudei completamente. Havia cansado de ser uma boa pessoa. Tinha cansado de seguir todas as regras. Não queria mais ser um homem bom. Tudo isso não tinha mais a menor graça.
       Apartamento 444. Eu estava sentado no sofá, com uma lata de cerveja em minha mão e o meu cachorro ao meu lado. Fumava um cigarro. O ultimo daquele maço, que droga. No cômodo, o único barulho a se ouvir era a televisão. Eu estava entediado. E então saí.
       A noite estava fria. O céu com poucas estrelas. Uma típica noite de inverno. Eu sabia o que iria fazer. Eu sabia o que queria fazer. Mas ainda era muito cedo.
       Fiquei parado na calçada. Mãos nos bolsos. Apenas observando as ruas, os carros que passavam, as pessoas. Você já parou pra pensar como todo mundo é diferente? Até nos mínimos detalhes, nada é igual.
       Uma garota passou por mim. Fones nos ouvidos, cigarro na boca, cara fechada. Não deveria ter mais de 16 anos. Uma adolescente rebelde. Perfeito. Eu escolho ela.
       Começo a segui-la. E então, quando ela entra em uma rua mais fechada, a seguro, tampando sua boca com a mão. Ela tenta gritar, se desvencilhar, mas é óbvio que sou muito mais forte que ela. A carrego até um muito distante beco sem saída, e a seguro contra a parede.
       - Me solte! Agora! Ou eu vou gritar! – Ela diz, e é inevitável a minha gargalhada.
       - Vai gritar pra quem, garota? Não tem ninguém aqui por perto. Ninguém vai te ouvir, menina boba. – Respondo isso e em seguida tiro o canivete do meu bolso.
       Ela me lança um olhar de pânico.
       Levanto sua blusa e passo o canivete com muita força pela sua barriga. Ela grita de dor. Vejo uma linha vermelha aparecer, e em pouco tempo o sangue já começa a jorrar. Faço outros pequenos cortes pelo corpo dela. Vejo o desespero e a dor estampados em seu olhar. Ouço seus gritos. Aquilo me dá prazer. Lágrimas escorrem de seus olhos, e um sorriso se abre em meu rosto.
       Chega. Chega de jogar. Já me diverti o suficiente. Seguro o canivete novamente e passo pelo seu pescoço. Atingindo a artéria. O sangue jorra outra vez. Em pouco tempo, o corpo sem vida da garota cai sobre meus braços. Pego meu celular e tiro uma foto do cadáver da garota. Tão linda. Jogo o seu corpo na lixeira que estava ao nosso lado. Um dia alguém encontrará o corpo. Espero que não demore muito, seria deplorável.
       Volto para casa e sigo em direção ao meu quarto. Imprimo a foto que tirei da garota morta e colo em meu mural. A primeira vitima de muitas. A felicidade me consumia. Um assassino, um psicopata, um doente mental... Era isso que eu tinha me tornado? Talvez. Se começar foi fácil, difícil vai ser parar.

                                                                                                            - Ana

Reticências



           Toda vida as lagrimas dela eram derramadas, derramadas por algo que destruiu seu coração, fez com que ela parasse de acreditar. Tudo que ela queria agora era poder reviver o que aconteceu, como se pudesse voltar no tempo e amar de novo, sem os mesmos erros cometidos, que faz com que as pessoas se afastem dela. Ela só queria um abraço que dissesse "estou com você, você vai ficar bem". Ela só queria saber que mesmo que ela errasse algumas vezes, alguém estivesse ao lado dela, e que assim ela pudesse ser feliz novamente. Feliz sem a culpa do que pode acontecer, feliz apenas feliz. Ela sabia que acima de se entregar a qualquer amor, tinha que saber se valeria a pena, e que antes de confiar em qualquer pessoa ela pudesse confiar em si mesma. Só que ela cansou de ser essa menina boazinha que gosta de todo mundo, e que é gentil, mas, ela não é assim, ela é diferente e gosta de ser assim. Ela a prendeu a ser fria e ignorar opiniões desnecessárias, opiniões de pessoas que não importam pra ela. Ela cansou de ser iludida. Cansou de acreditar em tudo, cansou da realidade, mas a prefere, ela cansou de tudo aquilo, que machuca seu coração de tudo aquilo que a machuca. Ela precisava de pessoas novas, sorrisos verdadeiros, abraços longos e momentos únicos... Mas nunca conseguiu. Precisava seguir em frente, continuar. Mesmo não sendo do jeito que sempre quis. Ela precisava parar e colocar um ponto final, onde só colocava reticências. 

                                                                                                 - Ana e Carol

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Mulher de fases




           Ela era como a lua... Tinha suas fases. Boas e ruins. Ela gostava de se comunicar com todos, sempre sorria, simpática, gostava de quem gostava dela. Gostava de sair, se divertir, viver a vida. A vivia como se não houvesse amanhã. É claro que tinha seus momentos ruins. Chorava por qualquer coisa e havia dias em que ela se trancava no quarto, colocava seus fones e não tinha vontade de ver ninguém. Absolutamente ninguém. Esses momentos ruins passavam rapidamente para ela, ela sempre soube que, apesar de tudo, a vida tinha que continuar e não se deve se deixar abalar tanto tempo por momentos ruins. Para ela, a tristeza era apenas um obstáculo na estrada do caminho da felicidade, que era pulado rapidamente por ela. Sempre voltava a sorrir. Nunca deixava de aproveitar cada momento, e nunca deixava de viver a vida. Era muito simpática, mas tinha dias que se irritava até com o vento. Gostava de pessoas que conseguiam a enxergar além do que parecia ser. Gostava de sair com os amigos, mas não trocava uma noite sozinha com um bom livro e uma xícara de café. Ela era o tipo que lia Nicholas Sparks, assistia comédias românticas, ouvia músicas lentas, escrevia poesias e gostava de tudo que envolve o amor... Mas nem sequer vive um. Meu filho, aguenta. Quem mandou você gostar dessa mulher de fases.

                                                                                                           - Ana

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Aquela música.


            Eu nunca tinha percebido antes, mas aquela música dizia tudo. Tudo que eu tinha feito, tudo que eu tentei fazer. Resumindo aquela música dizia tudo que eu precisava saber. Essa música, para certas pessoas tem um significado especial, para mim era quase tudo. Minha vida tava escrita naquela música, praticamente tudo que eu queria era aquela música que me falava. Mas sempre que eu ouvia essa música não percebia que as palavras que foram escritas nela tinham tanto significado. Na verdade se eu for analisar cada refrão, cada estrofe dita lá, é uma parte da minha vida que eu lembro, que eu recordo, uma parte da minha vida que aquela música descreve. Aquela música, é a única que conseguiu dizer tanta coisa em apenas seis linhas. Sento num canto, coloco meus fones, dou play e deixo a música me levar. A melodia é lenta, e cada verso me traz uma lembrança. Fico lá, sentada, envolvida pelas memórias, pelas lembranças do meu passado. Lembranças que, com certeza, é impossível apagar ou esquecer. Algumas lágrimas caem, junto com alguns meio sorrisos que aparecem. Quando a ouço, esqueço do mundo. Me protejo de todos os ruídos com o meu cantor preferido, com essa minha música preferida. Aquela, com certeza, era a música da minha vida. Nenhuma outra tinha tanto efeito sobre mim.

                                                                                              - Ana e Carol

A Floresta

  
     
           Ela se levanta da cama, como em qualquer outro dia, se veste, disposta a viver mais um dia de sua vida. Mora em uma fazenda, que era de seus avós. A fazenda fica do lado de uma floresta enorme, que ninguém nunca entrou. Seus pais tinham morrido quando ela tinha poucos meses de idade. Seus pais morreram em um acidente de carro em que ela estava presente. Ela era muito pequena, todos dizem que sobreviveu por um milagre. Está com 18 anos agora.
          Saindo de casa, já atrasada para a faculdade, vai indo em direção ao seu carro. Enquanto abre a porta e joga sua mochila lá dentro, escuta algumas vozes. Pensou que fossem seus avós lhe chamando, olha para a sacada da casa. Mas não há ninguém lá. E em seguida se lembra que os dois já haviam saído mais cedo. São vozes que ela não sabia de onde vinha.
         Olha para todos os lados, procurando a pessoa que está lhe chamando. Está sozinha. Só ela e mais ninguém. Estranho. E então, entra no carro, segue em direção a faculdade e acaba esquecendo.
         Já é fim de tarde quando volta. Entra em casa, anunciando sua chegada e não obtendo resposta nenhuma. Seus avós ainda não voltaram. Fica uma hora estudando, duas talvez... E então decide sair e tomar um ar fresco. Aproveita e brinca um pouco com o seu cachorro.
        - Vai Sunny, pega! - Diz ela, jogando a bolinha para seu cachorro.
        O cachorro vai pulando e balançando o rabo pegar a bolinha, e a traz de volta. Ela pega e a joga mais uma vez. Dessa vez joga muito próximo a floresta. O cachorro vai outra vez correndo pegar a bolinha, mas, por algum motivo, volta correndo com medo e entra dentro de casa. Ela acha engraçado, rindo vai até lá pegar a bolinha do cachorro para guardá-la. E então, escuta as vozes.
        "Venha... Venha até aqui..."
         Ela procura o lugar de onde vem o som. Acha que pode ser um rádio ligado que seu avô deva ter esquecido ali, ou qualquer outra coisa. E então, para de procurar e fica hipnotizada pelas vozes. As vozes vinham das folhas, das árvores, da floresta.
        "Shhh... Não diga nada a ninguém. Apenas venha... Entre aqui... Shhh"
         Ela acaba entrando na floresta, e desaparece. Nunca mais é encontrada. Ninguém nunca soube o que aconteceu com ela. E as vozes, nunca mais foram ouvidas...

                                                                                                - Ana

Você quer brincar?

       
 
           Eu corria. Sentia o vento bater em meu rosto, fazendo meus cabelos voarem. Sinto o suor escorrendo pelas minhas costas. Estava numa floresta. Só havia arvores. Arvores e mais arvores lá. Estava perdida, não fazia ideia de pra onde correr. Ele estava atrás de mim. Não ousava olhar pra trás. O medo me dominava.  Mas não, em hipótese alguma, olharia para trás. Se eu tivesse aprendido alguma coisa nessa droga de vida foi isso. “Não olhe pra trás, nunca. Se concentre no que está a sua frente.”
           Mas, por um descuido, ou talvez por curiosidade, acabo olhando para trás. Vejo que ele está muito perto, quase me alcançando. O desespero aumenta e volto a correr. Acabo tropeçando e caindo, apenas lhe dando mais uma chance de se aproximar cada vez mais. Droga. Levanto e continuo correndo, dessa vez, sem olhar para trás nenhuma vez.
            Já era de madrugada, 2 ou 3 da manhã, talvez... Ainda havia estrelas no céu, e eu implorava para que alguma delas me ajudasse. Ou melhor, pedia para que Deus me ajudasse. Se Ele existisse mesmo, como todos dizem, Ele precisa me ajudar. Não pode me deixar morrer. Socorro!
           Acabo entrando em um galpão abandonado. Sem  saída. Cubro a boca com as mãos, para não deixar um grito escapar. Preciso sair dali, antes que ele chegue e seja tarde. Mas, não dá. Já é tarde. Ele já está ali também.  Vejo-o parado na porta do galpão. Ele sorri, mostrando todos os seus dentes podres e tortos.  Tranca a porta do galpão abandonado, colocando uma tábua de madeira nela.  Era minha única saída... Era.
          - Estou a fim de me divertir um pouco hoje. Quero jogar um jogo. – Ele disse, segurando um enorme facão. Muito afiado, por sinal. – Você quer brincar?
           Ele se aproxima. Fica cada vez mais perto. E então, sinto os lençóis de minha cama grudados em minhas pernas e no resto de meu corpo com o meu suor. Eu acordei. Estou no meu quarto, olho para o teto e suspiro. Foi apenas um sonho. Apenas um pesadelo. Um pesadelo terrível... Segundos depois, meu despertador toca. 07:00h. Hora de ir pra escola. 

                                                                                                       -  Ana

Escorregada

   


  Sabe, ela esta cansada desse leve e trás. De todos os rótulos, dos olhares desconfiados e de todas as línguas afiadas dizendo que ela não é capaz. Ela sabe de todos os seus acertos os erros é que vão se destacar, mais uma vez. E que se ela caprichar eles vão querer outra vez.
       Que se ela ficar no seu canto eles vão perguntar "porque você está triste?". E eles não perguntam porque querem ajudar, e sim porque ela não tem motivo de ficar assim.
       Sabe, é como se mundo ao seu redor estivesse esperando por mais uma escorregada dela. Mundo cheio de buracos, obstáculos e ela se só sentisse segura com seu preto e velho all star. Ás vezes ela não consegue disfarçar, coloca o o fone de ouvidos e se protege de todos os ruídos com seu cantor preferido. 
       Ela está com os olhos fechados quase fazendo uma prece. O que ela quer? Não sei. O volume está no máximo, posso ouvir a melodia daqui.

domingo, 11 de agosto de 2013

Solidão

             Ela pegou sua xícara de café, um bom livro e seu violão. Colocou uma blusa de frio e foi andando até a varanda. E ali, sozinha, ficou sentada por horas. Tocando, lendo e lembrando. As lembranças a consumiam. Lembranças boas e ruins, de tudo que presenciou, de tudo que viveu. Enquanto o vento sussurrava em seu ouvido os segredos da vida, um belo sorriso apareceu em seu rosto. Ninguém sabe por que, mas ela sorriu... Pegou seu fone e colocou sua música favorita para tocar, e então pegou seu violão e acompanhou a melodia. O café havia esfriado, mas ela não se importava. E ali, passou mais algumas horas. E foi assim o dia todo. Um dia só pra ela. Ela estava sozinha, solitária. Mas estava feliz. Gostava de sua própria companhia. 

                                                                                              - Ana

Tanto faz

  
       Será que eu deveria ficar igual a todas as outras vezes? Deveria ficar chorando, berrando, implorando pra que esse não seja o fim? Implorando pra você não ir? Talvez.
        Mentira. Não deveria. É como aquele velho clichê “Nada é pra sempre... Tudo na vida tem um fim...” Talvez o problema seja que eu gosto desses clichês, eu acredito com toda a força nisso. Ou talvez não seja um problema... Enfim, não foi pra sempre. E eu só sinto muito. Não corro atrás. Cansei de acreditar em algo que nunca vai dar certo. Acabou. Como quando uma fada, com sua varinha faz tudo desaparecer. Puff.
        Olhei dentro dos seus olhos enquanto você disse o que eu não queria ouvir. E vi que você estava falando sério. Quis mesmo ir embora. E não consigo deixar de pensar no tempo que levará até que eu volte a ser o que era antes de conhecer você. Ou, se algum dia conseguirei recuperar tudo de mim que você levou contigo. Não há um modo rápido de superar um coração partido, ou um fim de um relacionamento. Não há atalhos, respostas fáceis, formas de apagá-lo. Apenas o tempo pode dar um jeito e, mesmo assim, acaba não resolvendo completamente. Não sozinho. Se aprendi uma lição disso tudo, foi essa.

        Então é isso. Você vai. Eu fico. Ok. Boa sorte. Até mais. Se o destino quis assim, agora tanto faz.

                                                                                              - Ana

"Gorda..."


             Ela abre os olhos. Não consegue mais dormir. Olha para o teto do quarto. Pensa um pouco na vida. Pensa na aposta que fez a muito tempo atrás, e pensa no que ela se tornou agora. Depois de muito tempo, decide se levantar. Calça os chinelos, passa os dedos pelos cabelos embaraçados, desfazendo todos os nós. Abre a janela, sente o calor do sol arder em seu rosto. São 10 da manhã.
             Ela se para na frente do espelho, muito insatisfeita com o que vê. Levanta sua blusa e pega nas “gordurinhas” da sua barriga. Começa a chorar.
            “Gorda... Ninguém nunca vai gostar de você desse jeito.” Sussurra pra si mesmo, abaixando a blusa. 
            Mas, o dia continua... Ela desce as escadas, e vai até a cozinha. Pega um copo, o enche com água e toma um gole.
            “Beba devagar. É só isso que você vai consumir o dia inteiro.”  Ela pensa.
            - Bom dia! – Diz sua mãe, entrando na cozinha. – Está com fome? O que vai querer comer? – Sua mãe sorri.
            - Bom dia, mãe. – Ela responde. – Não, não estou com fome. Depois eu como alguma coisa. – Mentira. Ela está morrendo de fome. Mas se recusa a comer.
            - Não, filha. Que isso. Coma alguma coisa. Por favor. – Sua mãe diz, lhe entregando um bolinho. - O dia será longo hoje. Quer um pão? Um pedaço de torta?
            “Ai meu Deus...” Ela pensa.
            - Não, mãe... Comerei o bolinho. Já está ótimo. – Ela força um sorriso. E dá uma mordida. Se sentindo culpada, engole.
            - Ok. Vou trabalhar, já estou saindo. – Pega sua bolsa e dá um beijo na testa da filha. – Amo você.
            - Também amo você, mãe. – Ela responde. Espera sua mãe sair, para jogar o resto do bolinho na lixeira.
            Sai correndo escadas acima. Entra no banheiro, se ajoelha na frente da privada. E começa a vomitar tudo o que está em seu estômago. Enxuga uma lágrima que insistiu em cair e escova os dentes. Sobe na balança. Vê seu peso e fica muito deprimida com o que vê. Não tinha emagrecido quase nada. Droga.
            Volta para seu quarto e vê o seu reflexo no espelho novamente. Para ela, estava muito gorda. Muito acima do peso. Precisava emagrecer. Foi uma aposta. Só assim ela estaria feliz. Não comia quase nada. E se comia, vomitava tudo quando ninguém estava por perto. Negava toda fez que lhe ofereciam comida, mesmo estando quase desmaiando de fome.
            “Você não é gorda. Você está ótima assim. Precisa se aceitar do jeito que é, você é linda. Pare com isso, querida.” Essas foram as palavras de sua mãe um dia desses.

            Porém, ela não acreditava em nada. Não ia parar. Iria continuar com isso cada vez mais...

                                                                                               - Ana

Muralhas

         
          Todos têm sentimentos. Alguns gostam de ter, outros não. As pessoas que gostam vivem bem. Os expressam sem medo do que vão dizer, sem medo do que vão achar. Amam uns aos outros, sem medo do amanhã. Amizade, amor, afeto, carinho, felicidade. Alguns são felizes com seus sentimentos. Pessoas sortudas.
               Porém, alguns não são. Tristeza, desilusão, ódio, mágoa. Algumas pessoas se permitiram amar tanto, além do permitido e se decepcionaram. Por isso, hoje detestam seu sentimentos. E então constroem muralhas em si mesmo, contra os sentimentos. Os impedindo de entrar. Não querendo nunca mais os sentir.
               Algumas pessoas precisam saber que nem sempre o amor é recíproco. Nem sempre você amará uma pessoa e ela te amará de volta. Quando isso acontecer, tudo bem. Esquece, desapega, abandona. Essa pessoa não merece nada vindo de você. Uma hora sua vez chegará, e você amará alguém que te amará de volta. É só uma questão de tempo. Relaxa.
              Não construa uma muralha ao redor dos seus sentimentos. Não se pode fugir deles.

                                                                                                               - Ana

Você se foi...

             

              Não sei por que me pego pensando em você quando eu sei que vai atrapalhar todo o meu discurso de “eu-estou-melhor-sem-ele”. Não entendo essa minha ridícula necessidade de cutucar minha ferida que nunca cicatriza. Eu te excluí de todas as minhas redes sociais, excluí sem número do meu celular, e joguei todas as cartas, promessas, e lembranças fora para provar que não sinto a sua falta, e que estou bem sem você. E eu repito para mim mesma como a sua namorada nova é sem sal, e como vocês dois não são um casal bonito. Mas droga, não consigo mais me iludir com vocês me provando sempre o contrário. Com esse teu sorriso enorme que sempre aparece quando você está ao lado dela. Não consigo admitir o fato de que ela tem os cabelos mais bem sedosos e bonitos que eu já vi e que ela os mantém cuidadosamente arrumados. E os olhos escuros dela que aparentam um abismo sem fim – o qual nós nos encontramos. E, coincidentemente, ela é o meu oposto. Literalmente. Em tudo. Eu odeio como vocês dois são agradáveis juntos. Como vocês combinam se completam. Não quero pensar que outro alguém consegue te fazer feliz. Que outra pessoa, além de mim, consegue te satisfazer. Eu detesto o jeito de como você segura a mão dela, parece que querendo nunca mais soltar. É inaceitável o fato de que você seguiu em frente, que outra garota com o jeito totalmente o contrário do meu ocupou o meu lugar. Enfim, você se foi… e deixou um buraco enorme em mim.
                                                                                                                  - Ana

Apenas uma noite...

        

         Estava escuro. Era uma noite fria. Acendi um cigarro enquanto andava pela rua. A escuridão era tanta que mal conseguia enxergar alguma coisa na rua em minha frente. Encosto em uma parede de uma loja que estava fechada enquanto termino de fumar. Lembro de todas as palavras que a mim foram ditas. O mundo é um lugar cheio de gente desprezível. Ninguém se contenta em cuidar somente da própria vida. 
- Idiotas... Apenas um bando de idiotas! – sussurro, enquanto dou a ultima tragada do meu cigarro e jogo a bituca no chão. Em seguida, volto a andar pelas ruas escuras.
Começa a chover. Uma chuva fina. Sinto todas as gotas da chuva escorrerem sobre meu corpo.
- Mas que droga! – Reclamo, colocando a touca de meu moletom sobre a cabeça.
Continuo andando, até que tropeço em algo que, até agora, não sabia o que era e acabo caindo no chão. E então olho para a coisa em que tropecei. Deitada, ali no chão, solto um grito. Era um cadáver...
Ou, pelo menos eu pensei que fosse. O corpo abre os olhos. O desespero me domina. Mas então eu percebo que é alguém ferido. Alguém que precisa de ajuda.
- Ai meu Deus! Você está bem? Eu vou te ajudar... Socorro!  - Grito e pego meu celular, decidindo que ligarei para uma ambulância. O telefone está sem área, não tenho ideia do que fazer. 
Mas, por algo eu não esperava. Ele se mexe muito rapidamente, não tive tempo nem de raciocinar o que estava acontecendo. Fica com o corpo sobre o meu, me prendendo. Tento me desvencilhar dele, totalmente sem sucesso. Ele leva a mão até o bolso, tirando uma faca e apontando-a para mim. E então, finalmente percebo que ele não é um homem que precisa de ajuda. É um psicopata. Daqueles que todo mundo espalhava boatos da existência deles pela cidade. Boatos de que eu nunca acreditei. Até hoje. 
Sinto o metal perfurar o meu corpo, e em seguida subitamente sinto a dor. Mas ele não parou por aí. Continuou me dando várias outras facadas.
- Não se deve andar pela cidade a essa hora, doçura. E ainda mais sozinha... Você acaba se tornando uma presa tão fácil. – ele sussurra. Sinto seu hálito podre e o vejo abrir um sorriso. 
A chuva para.
Tudo escurece.

                                                                                          - Ana

Meio Psicopata



Era 04 de agosto de 2004. O dia em que eu mudei completamente. Havia cansado de ser uma boa pessoa. Tinha cansado de seguir todas as regras. Não queria mais ser um homem bom. Tudo isso não tinha mais a menor graça.
       Apartamento 444. Eu estava sentado no sofá, com uma lata de cerveja em minha mão e o meu cachorro ao meu lado. Fumava um cigarro. O ultimo daquele maço, que droga. No cômodo, o único barulho a se ouvir era a televisão. Eu estava entediado. E então saí.
       A noite estava fria. O céu com poucas estrelas. Uma típica noite de inverno. Eu sabia o que iria fazer. Eu sabia o que queria fazer. Mas ainda era muito cedo.
       Fiquei parado na calçada. Mãos nos bolsos. Apenas observando as ruas, os carros que passavam, as pessoas. Você já parou pra pensar como todo mundo é diferente? Até nos mínimos detalhes, nada é igual.
       Uma garota passou por mim. Fones nos ouvidos, cigarro na boca, cara fechada. Não deveria ter mais de 16 anos. Uma adolescente rebelde. Perfeito. Eu escolho ela.
       Começo a segui-la. E então, quando ela entra em uma rua mais fechada, a seguro, tampando sua boca com a mão. Ela tenta gritar, se desvencilhar, mas é óbvio que sou muito mais forte que ela. A carrego até um muito distante beco sem saída, e a seguro contra a parede.
       - Me solte! Agora! Ou eu vou gritar! – Ela diz, e é inevitável a minha gargalhada.
       - Vai gritar pra quem, garota? Não tem ninguém aqui por perto. Ninguém vai te ouvir, menina boba. – Respondo isso e em seguida tiro o canivete do meu bolso.
       Ela me lança um olhar de pânico.
       Levanto sua blusa e passo o canivete com muita força pela sua barriga. Ela grita de dor. Vejo uma linha vermelha aparecer, e em pouco tempo o sangue já começa a jorrar. Faço outros pequenos cortes pelo corpo dela. Vejo o desespero e a dor estampados em seu olhar. Ouço seus gritos. Aquilo me dá prazer. Lágrimas escorrem de seus olhos, e um sorriso se abre em meu rosto.
       Chega. Chega de jogar. Já me diverti o suficiente. Seguro o canivete novamente e passo pelo seu pescoço. Atingindo a artéria. O sangue jorra outra vez. Em pouco tempo, o corpo sem vida da garota cai sobre meus braços. Pego meu celular e tiro uma foto do cadáver da garota. Tão linda. Jogo o seu corpo na lixeira que estava ao nosso lado. Um dia alguém encontrará o corpo. Espero que não demore muito, seria deplorável.
       Volto para casa e sigo em direção ao meu quarto. Imprimo a foto que tirei da garota morta e colo em meu mural. A primeira vitima de muitas. A felicidade me consumia. Um assassino, um psicopata, um doente mental... Era isso que eu tinha me tornado? Talvez. Se começar foi fácil, difícil vai ser parar.

                                                                                                           - Ana

O brilho das estrelas

         


            Percebi a carteira da Ana vazia hoje na escola. Mas ela não faltara aula naquele dia, ela estava sentada lá, só que com a mente em outro lugar. Ana estava com a cabeça baixa, rabiscando alguma coisa no caderno… Um coração. Por um momento achei fofo, ela o contornava pela a aula de história inteira. Comecei a observar aquilo e ela rabiscou todo o desenho. Encheu os olhos de lagrimas e se escondeu no capuz de seu moletom preto. Ela era muito legal, ela falava com todo mundo, e tenho certeza que todo mundo amava falar com ela. Era aquele tipo de garota que fazia qualquer um rir e que vivia cantarolando e rindo com as amigas. Eu não faço a mínima ideia do que aconteceu com ela.
           Mas ela mudou… Mudou totalmente. A garota ficou fria. Fones de ouvido, falando só o necessário, nem parece aquela menina que um dia sorria até pro vento. Ela era uma estrela, que agora perdeu o brilho.
Mas a verdadeira estrela precisava do brilho de volta, a garota de antigamente não existe mais, essa estrela perdeu coragem, liberdade, senso de humor, criatividade, e um amor. Faz um tempo que a estrela queria seu brilho de volta, mas agora era inevitável, ele precisava pra sobreviver, e teve que retirar a magia de Ana... O amor. Ela não soube amar desde então, perdeu tudo o que havia conquistado. Mas uma coisa Ana não esperava, a estrela tinha lhe roubado o coração. Ela não tinha mais vida, só existia, mais nada. Musica. Essa a entendia bem, as pessoas não passavam de um fardo, amigos... Não sabia o que era isso agora. Não importava mais o futuro, nem o passado e nem o presente. Eu via Ana guardando o material sem muito animo, eu via ela desesperada, mas sem demonstrar nada. Ela pedia ajuda, mas ninguém ouvia. Ela não se comunicava muito verbalmente, e às vezes nem se comunicava.
             Já era fim de tarde quando saímos da escola, vi Ana passando por mim, quase se arrastando, de cabeça baixa. “Não seria mal se eu a seguisse”. Pensei. E assim eu fiz. Chegamos em um morro, que era muito lindo pra falar a verdade. Ana começou a escalar todas as pedras daquele lugar, sentando na mais alta. A pedra ficava perto de uma arvore enorme. E era iluminada pela lua. Ana olhou para o céu, e eu acompanhei o seu olhar. Estava uma noite linda, de céu estrelado, mas... Havia uma estrela solitária, um pouco distante de todas as outras. De acordo com tudo o que estudei sobre astrologia, acho que era a estrela que se chamava, ironicamente, Ana.
             Ana estava chorando, e olhava para a estrela. A estrela não brilhava muito, na verdade seu brilho estava quase se apagando. Quase não se destacava entre as outras. Quase. Havia uma coisa diferente, ela tinha a forma de um coração. Olhei novamente para a alta pedra em que Ana estava, só que... Ela não estava mais sentada ali. A procurei e encontrei o corpo da garota entre as outras pedras mais baixas. Ana tinha se jogado. Cometeu suicídio. Ela tinha acabado com tudo.
             Olhei novamente para o céu, para a estrela com o formato de coração. E naquele momento, o brilho dela tinha aumentado. Estava muito intenso, e agora ela se destacava entre as outras. Era uma linda estrela de coração no céu. Essa estrela, de alguma forma, recuperou o seu brilho. Mas, Ana não. Ela simplesmente se apagou.
                                                                                         - Ana

Recomeço


Ela mudou as roupas, o modo de andar, pintou o cabelo, mudou o jeito de pensar de falar e até de agir, mudou seu jeito, mudou tudo. Talvez tenha se cansado. Cansado das pessoas. Cansado de todas as duvidas, argumentos, razões, emoções, mentiras e de todos os sentimentos. Cansou da vida. Desistiu de tudo. Ela não era e não chegava nem perto de ser a garota que era antes. Ela mudou completamente. Só pra disfarçar o que não havia mudado ainda, seu coração... Mesmo que por fora ela se mostrasse fria e grossa, seu coração era o mesmo. Seu coração ainda era capaz de acreditar no amor, de acreditar que ainda existe uma saída. E mesmo com essa capacidade de acreditar, a vida magoou esse coração que um dia parecia acreditar em muitas coisas, e que hoje se limita apenas a poucas verdades, verdades essas que são importantes para ela continuar acreditar no que acredita, que pode assim ser conhecida como dar a volta por cima, e tudo que ela quer agora é recomeçar.

                                                                                            - Ana e Carol.